November 21, 2017

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Uma lição de desapego

November 21, 2017

 

 

            Meu mestre deu-me tudo e eu não podia dar-lhe coisa alguma. Seus adeptos mais zelosos costumavam oferecer-lhe tanto dinheiro que ele não sabia o que fazer com a dinheirama. Eu costumava distribuí-lo aos outros em seu nome e gastava-o como bem entendia. Certa vez eu lhe disse:

 

            - Quero ir a Bombaim.

            E ele:

            - Leva todo o dinheiro que quiseres.

            Levei 5.000 rúpias e comprei muitas coisas, incluindo três gramofones.

 

Ele disse apenas:

 

            - Maravilhoso, meu rapaz, toca-os todos de uma vez.

            Quando os toquei todos juntos, não consegui entender nada.

 

            O desejo ardente e a cobiça nunca satisfazem ninguém. Os desejos de posse aumentam sem cessar e transformam-se, afinal, num turbilhão de sofrimentos. Não ser pode dissipar essa ignorância simplesmente freqüentando o templo, fazendo devoções na igreja, ouvindo sermões ou executando rituais. Durante séculos os homens têm realizado seus desejos, mas continuam infelizes. Para atingir a suprema realidade, é mister libertar-se do desejo de estorvos não essenciais.

 

            O possuir mais do que o necessário só cria obstáculos para a pessoa. É um desperdício de tempo e energia. A satisfação de carências e desejos sem a compreensão de necessidades e precisões nos desvia do caminho da percepção. O desejo é a mãe de todo sofrimento. Quando os desejos de consecuções terrenas são dirigidos para conseguir a autopercepção, o mesmo desejo converte-se em meio. Nessa fase, em lugar de tornar-se um obstáculo, o desejo passa a ser útil instrumento de auto-realização.

 

            Isso pode ser explicado por um símile muito simples. Uma brisa apaga com facilidade a chama de uma vela mas, se se proteger a chama e se permitir que alcance a floresta, converter-se-á num incêndio florestal. E a brisa ajudará a crescer em vez de apagá-la. Da mesma forma, quando um aspirante, com o auxílio da disciplina, protege a chama do desejo que arde em seu interior, esta cresce a cada vez mais. E todas as adversidade, em lugar de se tornarem obstruções, começam, de fato, a converter-se em meios. Os obstáculos que se supõem capazes de obstruir o caminho da auto-realização, na verdade, não são obstáculos. Nossas fraquezas e os valores que impomos aos desejos do mundo criam-nos para nós. O apego é um dos obstáculos mais fortes que criamos. Com a ajuda do desapego, superamos tais obstáculos.

 

            Existem quatro maneiras de afastar os obstáculos. Primeiro, se não houver objeto, a mente humana não poderá apegar-se a ele. Renunciar ao objeto é uma das maneiras, que, aliás, parece ser muito difícil para as pessoas comuns. Segundo, embora tenhamos todos os objetos do mundo, se aprendermos a técnica de usá-los como meios, eles não criarão obstáculos para nós. Nesse caminho, as atitudes precisam ser transformadas. Quem transformou as próprias atitudes pode mudar suas más circunstâncias em circunstâncias favoráveis. A terceira maneira é o caminho da conquista, em que aprendemos a executar nossos atos habilidosa e desinteressadamente, renunciando ao fruto de nossos atos em benefício dos outros. Uma pessoa assim torna-se desprendida e cruza seguramente o oceano da vida. A quarta consiste na entrega de si mesmo, e nela a pessoa se entrega a si e quanto possui ao Senhor, levando uma vida de libertação de todos os apegos. Esse caminho parece fácil mas, ao contrário, é difícil.

 

            Em vez de corrigir-me, meu mestre costumava fazer-me perceber que a mente e o coração humanos mudaram por causa das fraquezas humanas. Eu costumava refletir sobre cada fraqueza e, em seguida, meditar na auto-transformação. Ele nunca me dizia: “Faze isso e não faças aquilo”, mas me mostrava o caminho que eu me punha a palmilhar sozinho. “Aprende a caminhar sozinho” era uma lição para mim.

 

Vivendo com os Mestres do Himalaia

Swami Rama

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